Aquele local não era desejado... ainda assim, fui entrando. Caminhava devagar... fazendo um esforço para conseguir respirar naquele ambiente, infinitamente mórbido. As cores misturavam-se com os cheiros; castanhos, azuis e brancos dominavam aquele espaço. Penosamente, caminhava... ouvia o som dos meus passos, naquele corredor que parecia não ter fim. O meu olhar, ainda que cabisbaixo, detectava cada pormenor... e o cheiro da terra molhada intensificava aquele momento. O medo apoderou-se de mim ao avistar aquele monte de terra que acabara de ser remexido. Um buraco no chão havia sido meticulosamente escavado.
Será "aquilo" considerado o céu?!
Por momentos deixei de olhar, fechei os olhos; tentei compreender.... Talvez o mistério da morte seja a parte do enigma da alma e da vida em si. Talvez entender a morte signifique, realmente, entender a vida.
Desperta pelos sussurros que me pareciam gritos, alguém chorava palavras... sentidas, fingidas... talvez banais. Voltei a olhar... observava com ternura as lágrimas nos olhos, os rostos pálidos e tristes, as expressões piedosas. Não consegui verter uma lágrima que fosse. Não que me tivesse transformado em alguém insensível, não! Esta realidade tem sido uma constante na minha vida; tem sido, repetidamente, observada e vivida.
Encarar a morte tem muito que se lhe diga; talvez por isso tenha considerado aquele buraco no chão um absurdo. Sim, aquele buraco "mata" qualquer morto!