Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notaste que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não achas?! Admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabes porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. 
      É assim o homem, meu amigo, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. Observa os teus vizinhos... se  alguém morre no prédio, na aldeia, alguém que conhecias da faculdade.... Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o dono da taberna. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no jornal e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, pois então!! É a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
      É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!!