Clarice

Tu bem sabes, não me prendo a nada que me defina...
Posso ser companhia, mas também posso ser solidão; gosto de tranquilidade, mas posso ser inconstante; dou abraços, espalho sorrisos, sou animada e bem humorada... mas também sou sarcasmo, muita preguiça e algum sono; posso ser música alta, mas também silêncio. 
Enfim, serei o que tu quiseres, mas só quando eu quiser... Não me limito, não vou ser mais cruel comigo. Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer. 

Sou uma só... Sou um ser... e a única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo.

:-)

Tutto vero!


"O verdadeiro amor não precisa de lutas. Não se luta por amor: ou há amor, ou não há. Também não é preciso iniciar jogos, fazer-se interessante, entrar na coreografia infernal de medir forças e poderes do tipo «não me telefonaste durante três dias, agora também não me apanhas e nem te respondo aos emails», bem como outros disparates do género que só nos fazem perder tempo e energia. No verdadeiro amor não há lugar para esquemas, é preciso confiar, dar e acreditar sem reservas. É pegar ou largar, porque quando pega, é óptimo, e se não pega, não vale a pena correr atrás, nenhuma marca de cola nem truques de falinhas mansas resolvem o problema."

Margarida Rebelo Pinto

Pelo meio dos pirinéus



   Saía de Andorra toda entusiasmada, com neve até aos olhos... e frio no meio dos ossos. Seguia em direcção a Perpignan e pouco depois fui obrigada a parar. Uns matulões armados em PIDE, com cara de poucos amigos falaram para mim naquela linguagem de enrolanço de lingua, ou melhor... em francês. Peguntaram de onde vinha e eu disse: de Portugal... Continuaram a falar em francês, e aí eu pedi (por favor!!) para falarem em inglês! 
   Começaram a abrir as portas do meu carro, a espreitar para dentro.... pediram documentos da viatura, e como se não chegasse, ainda perguntaram qual era a minha profissão. 
   - "Where  are you going???" Marseille, disse eu... 
   Mais uma vez perguntaram: "where are you going???" E eu a pensar: que filhos da mãe de burros são estes?? I'm going to marseille!! 
   - "How long ??" E eu: I don't know.....LOOOLLLL
   Ao mesmo tempo que três maganos vasculhavam as minhas coisas, desde o interior da minha mala de mão até à mala de viagem, inclusive o tamanho do fio dental.... iam balbuciando em frances merdas que eu não entendia. De qualquer maneira, eu estava na boa e ainda mandava umas larachas de vez em quando! Entretanto, olharam para um tuperware e perguntaram o que tinha lá dentro. Era um bocado de bolo do qual me tinha esquecido há duas semanas dentro da bagageira....! Bem, fui simpática e...ainda perguntei se queriam um bocado....ahahaha
   Entretanto, um deles vem-me com a conversa de 10.000 euros, se eu possuia dez mil euros!! Bom, eu como n sabia para que era.... disse: tenho, tenho.... claro que tenho!!!! E ele: é que se tiver mais n pode passar! - Ah não, claro que não....! só tenho 10.000!!!lollll Enfim, continuaram a  vasculhar, por baixo dos tapetes, abriram o capot do carro... o outro ajoelhou-se e espreitou para debaixo do mesmo. Abriram tudo e mais alguma coisa.... 
   Mais tarde perguntei para que era aquele aparato todo! It's about everything.... Drugs, money... diamonds!! Bom se eu tivesse diamantes n vinha de carro, não. Pegava no meu jacto privado e ia até Marselha.LOOOL.... Quase no final: - where are the 10.000??? Ao que eu respondi: In the bank, of course.... que ideia a minha de andar com esse dinheiro todo numa viagem....LOOOL. Os gajos olharam para mim, como se eu estivesse a mocar com eles!  No fim de tudo revirado, disseram que podia seguir.... (OK, DISSE ELE!) Ao que eu respondi, OK!! Nice job!!:-) 

   Agora imaginem se eu tivesse os diamantes enfiados no cú!! Será que eles iriam espreitar?? É que tanta merda, e nem me revistaram a mim....! 

Ainda na dúvida...

Sim, esta noite pareceu-me interminável! 


Repleta de horas multiplicadas, minutos e segundos. Uma noite preenchida de pensamentos, sono.... pensamentos e... mais sono! Um sono leve e cheio de reviravoltas. Realmente, devo ter dormido à séria, no máximo, duas horas...! E tudo se resumia à grande loucura que estaria prestes a cometer...!
No entanto, levantei-me cedo. Ainda de pijama e com uma chávena de café na mão terminei de arrumar, apressadamente, a mala de viagem. Inevitavelmente, pensei 300.000 vezes naquilo que seria, de facto, essencial.... não era boa ideia deixar para trás o carregador do portátil ou a máquina fotográfica, atafulhando a mala de roupa e perfumes. Enfim, a mala até pesa pouco e sinceramente, acho que vou ter de lavar roupa pelo caminho! 

Buraco no céu.....

     


    Aquele local não era desejado... ainda assim, fui entrando. Caminhava devagar... fazendo um esforço para conseguir respirar naquele ambiente, infinitamente mórbido. As cores misturavam-se com os cheiros; castanhos, azuis e brancos dominavam aquele espaço. Penosamente, caminhava... ouvia o som dos meus passos, naquele corredor que parecia não ter fim. O meu olhar, ainda que cabisbaixo, detectava cada pormenor... e o cheiro da terra molhada intensificava aquele momento. O medo apoderou-se de mim ao avistar aquele monte de terra que acabara de ser remexido. Um buraco no chão havia sido meticulosamente escavado.

    Será "aquilo" considerado o céu?! 

    Por momentos deixei de olhar, fechei os olhos; tentei compreender.... Talvez o mistério da morte seja a parte do enigma da alma e da vida em si. Talvez entender a morte signifique, realmente, entender a vida. 
    Desperta pelos sussurros que me pareciam gritos, alguém chorava palavras... sentidas, fingidas... talvez banais. Voltei a olhar... observava com ternura as lágrimas nos olhos, os rostos pálidos e tristes, as expressões piedosas. Não consegui verter uma lágrima que fosse. Não que me tivesse transformado em alguém insensível, não! Esta realidade tem sido uma constante na minha vida; tem sido, repetidamente, observada e vivida. 
    Encarar a morte tem muito que se lhe diga; talvez por isso tenha considerado aquele buraco no chão um absurdo. Sim, aquele buraco "mata" qualquer morto!


Bem visto!

Há 60 anos, Cesare Pavese pensou que a única alegria neste mundo seria a de começar. E está bem visto, porque a maravilha que é viver, só vale mesmo a pena quando podemos começar... sempre e a cada instante. Começar é nada mais, nada menos... do que experienciar. É termos sempre presente que cada vivência é uma aventura.
Concordo quando ele refere que, quem não sente o perene recomeçar que vivifica a nossa experiência, no fundo é um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura. No fundo, a moral é: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo. É melhor sofrer por ter ousado agir, do que recuar. No fim paga-se mais caro

Shoot the bright lights out of the sky, cover everything like ice and snow...

      

        Eu quero acreditar que tudo isto não passa de um grande pesadelo! Este aglomerado de situações que me varrem, constantemente, para debaixo do tapete... Os dias passam e não consigo perceber em que parte da vida tomei a decisão menos acertada. Talvez o melhor seja recomeçar, voltar ao zero. Mas mesmo assim... what is the pointWill be worth it? Será que com todas as vivências, tristezas e alegrias que a vida me foi proporcionando... posso decidir o mais acertado para mim?! Seria tão fácil se assim pudesse ser.... É que, na verdade, o passado atormenta-me. Ele atira-me para fora da realidade. 
      Imagina a sensação de te sentires preso no local mais frio do mundo. Imagina-te aí, perdido e sem qualquer hipótese de fugir, porque onde quer que vás, estarás sempre acompanhado da impiedosa e dura crueldade do gelo. Estarás  distante e, seja qual for o caminho que escolhas, não vale a pena.... irás enfrentar sempre, e nada mais do que esse frio implacável.
       Assim sou eu, encontro-me presa ao passado. Quero tanto fugir desse gelo...!! E aí, talvez nem seja assim tão mau estar debaixo do tapete.... 
        E sabes que mais? No fundo, bem lá no fundo... quisera eu encontrar um tapete bem confortável onde possa encontrar algum alívio e consolo.....! Quisera eu um tapete para me esconder desse passado....   

Screaming with the sound of a smooth cover of White Stripes.....




(...) And I'm talking to myself at night, because I can't forget
Back and forth through my mind, behind a cigarette
And the message coming from my eyes, says: leave it alone. (...)

O outro também canta assim: "A Felicidade, todos nós queremos!!" :-PP


      Sim, eu procuro essa felicidade! Tenho essa esperança. É enorme a expectativa, de que essa possa ser encontrada ao longo da vida. O resultado: são esperanças insatisfeitas e frustradas.
     
        Sim, desde menininha que figuro essa sensação de alegria e bem estar... pinto quadros com muitas cores, imagens escolhidas por capricho... rabiscos ininteligíveis acerca dessa felicidade sonhada e  falsamente determinada. Acho que posso considerar-me demasiado humana, talvez demasiado banal... Busco algo que talvez já tenha encontrado. Nunca satisfeita com o que tenho. Procuro mais e mais..... E é essa falta de discernimento que me deixa louca. Uma loucura repleta de pensamentos extravagantes. Afinal, talvez seja a aspiração sempre insatisfeita à felicidade que me deixa infeliz.
        No final das contas, porque não buscar, apenas, a tranquilidade e a ausência da dor... das mágoas e das aflições. É, de facto, consideravelmente, mais satisfatório!!! Se pensarmos que passamos a desejar algo atingível.

Ai sono.... acompanha-me com esta musica.

Night thoughts....

     Não vale a pena acender a luz e olhar para o relógio. É tarde, sinto-o... pelo frio que atravessa o meu corpo, pela dureza da madrugada. Devia tentar dormir, mas do silêncio nascem pensamentos, recordo palavras. Não queria, mas respiro-as, como se delas dependesse a minha existência: "A vida é um desencontro permanente" - é comum oferecermos a boca a outra que não a deseja, estendermos a mão e só existir vazio...! Mesmo assim, todos os dias partimos ao encontro dessa desarmonia e esperamos. Respiro, portanto, espero.... Quero desencontrar-me.
      Devia dormir, mas o tempo passa... No fundo, o que eu quero é um tempo sem memória, um tempo limpo, que não traga palavras. Anseio por um vazio, uma tela sem cor ou imagens, um fundo de um poço, capaz de afogar tudo e não apenas o corpo... extinguir uma dor. No entanto, estou exausta, quero dormir, fechar os olhos... e esquecer.

Enjoy the Silence

Chove lá fora... e dentro de mim.

     O caminho mais errado para a felicidade é vivermos, constantemente no grande mundo, à grande e à francesa, em festas e festinhas. Tentamos, assim, transformar o nosso miserável existir em inúmeras alegrias, gozos, prazeres e, consequentemente, em desilusão. Na verdade, não conseguimos evitar a desilusão, e muito menos as mentiras. O que dizemos, o que fazemos....  tudo mentira! No fundo, só podemos ser nós mesmos enquanto estivermos sozinhos. E se amares a solidão, amarás, igualmente, a liberdade!
      Apenas quando estamos sós é que estamos livres. E cada um fugirá, suportará ou amará a solidão, dependendo da sua personalidade. Só na solidão.... o indivíduo cínico sente todo o seu cinismo! Já um altruísta, toda a sua grandeza! 

      Em poucas palavras: cada um sente o que é. 

Simone... no seu melhor!



Já te dei o meu corpo, a minha alegria!
Já estanquei o meu sangue... quando fervia!

Olha a voz que me resta, olha a veia que salta, olha a gota que falta... para o desfecho da festa.
Por favor !
Deixa em paz o meu coração, que ele é um pote, até aqui, de mágoa.
E qualquer desatenção... Faça não !
Pode ser a gota d'água!


If I could do more than.....

Freedom!!

Ele ficava doido, sentia-se possuído!! Ele sentia-a apagar-se... Fria, insensível ao gesto de afago, ao toque, a um simples carinho... só porque não sentia qualquer entusiasmo. Irreverência, faz parte do encanto dela. Ela sabia torna-se por vezes insuportável, com a mania de viver, aproveitar cada minuto, fazer tudo num só dia, como se fosse morrer no momento seguinte, a fazer de conta que.... hostil, alheada. Ele procurava o perdão... Mas agora não..... Agora ela quer recuperar a sensação de liberdade, de alegria de viver. Ela nem sabia que se poderia recuperar algo, a não ser objectos perdidos....

Feeling a Moment.... that's the spirit!

Enfim...

    Tens nas mãos um mapa... elas sabem mais do que as minhas. Agora sei, não te deveria ter deixado entrar novamente na minha vida. Entraste por atalhos, caminhos que eu desconhecia. Agora sei... é tarde para tudo. Sem uma palavra, de novo me raptavas.... os descuidos pagam-se caro.  No fundo, no fundo eu tenho a certeza: o que tu queres é o segredo, o código da minha alma, a chave do meu pensamento. Para o meu corpo não é necessário. 

Limit To Your Love

Aqueles dias...

Como quem tece um xaile para o frio da alma, eu invento os teus braços nos meus ombros... o verão da tua boca na minha pele. No meu outono, agreste, invento-te. E a tua lembrança, que não foi nem houve, porque não existes... ou o teu destino é longe, e noutro lugar atravessa a noite.

É necessário sermos artistas!




Vivemos tempos imediatos, em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor (de cabeça ou do coração). Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho... 
Tomam-se conselhos e comprimidos... procuram-se escapes e alternativas, mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar... É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha que nos despedaça o coração, que nos mói e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais... mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Hoje estou com Sigur Rós pela casa!:-)

Ahhhhhhreeee!!!


      Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigada a escutá-los, a dialogar com eles. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. 
       Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?

        No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil. Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. 
         A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um «parvenu» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro. Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer "plof" e descer, liquidado. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi. 

Porque me apetece... e porque é a música que me acalma o espírito.

Quem és tu?

      Sem música não poderias viver a tua vida. Não é uma distracção, é uma dependência. Deve ter a ver com a harmonia das esferas, a consonância de tudo o que és e vais sendo, um acorde em Si menor. Só a musica te traz à alma o alento indispensável para que te possas levantar, vencer a gravidade da terra. Isso é uma certeza, não vale a pena pensares nela. (Ouvindo Madrugada): "So am I....? Good or bad.... "
      És como és.... não gostas de dar trabalho a ninguém e detestas incomodar quem quer que seja. Não queres ficar a dever nada a ninguém, se isso for possível. Mas a quem agradecer tudo o que existe sem nada te pertencer: o ar que respiras, o chão que suporta os teus passos, o alimento que te faz carne e saliva e matéria sensível. Sim, o que tu és, é matéria sensível: uma absoluta contradição num existir impossível. Gostas de passar despercebida, seguir intocável por entre as pessoas. Tudo menos pensar no que te preocupa a esta hora em que o sol bate sem clemência. 

      Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notaste que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não achas?! Admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabes porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. 
      É assim o homem, meu amigo, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. Observa os teus vizinhos... se  alguém morre no prédio, na aldeia, alguém que conhecias da faculdade.... Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o dono da taberna. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no jornal e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, pois então!! É a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
      É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!!

Ora, vamos lá tratar de decidir!

       

       Primeiro pára, senta-te e pensa o que pretendes de bem. Depois, pondera, não as hipóteses teóricas, mas as possibilidades reais. Então, entre duas realidades, podes escolher a melhor. Não, não é descobrir a única hipótese boa, mas sim, decidir entre coisas boas, qual é a melhor, a mais construtiva para si e para os outros. Se é fácil ou difícil, isso não conta. 






(Padre) Vasco Pinto de Magalhães, in 'Não Há Soluções, Há Caminhos'
 

Estupidez e ansiedade.... Loucura!!

   Será a ruína do espírito andarmos ansiosos pelo futuro, desgraçados antes da desgraça, sempre na angústia de não saber se tudo o que nos dá satisfação nos acompanhará até ao último dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expectativa do que há-de vir, deixaremos de aproveitar o presente.
     O cúmulo da desgraça e da estupidez está no medo antecipado: que loucura é esta, ser infeliz antecipadamente? 
       Em suma, para numa palavra te resumir o que eu penso e te descrever como são estes homens que, à força de se preocuparem, só conseguem fazer mal a si próprios: tanta falta de moderação eles mostram em plena desgraça como antes dela! Quem sofre antes de tempo sofre mais do que o devido; uma mesma incapacidade leva-o a não prever a presença da dor onde não a espera; uma mesma imoderação fá-lo imaginar permanente a sua felicidade, imaginar que os bens que o acaso lhe deu não só hão-de perdurar como também de multiplicar-se; esquecido do trampolim que é a vida humana, convence-se de que no seu caso, por excepção, o acaso deixará de se fazer sentir. 

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

"Agarrem-me senão eu mato-o"


    A mulher portuguesa não é só Fada do Lar, como Bruxa do Ar, Senhora do Mar e Menina Absolutamente Impossível de Domar. É melhor que o Homem Português, não por ser mulher, mas por ser mais portuguesa. Trabalha mais, sabe mais, quer mais e pode mais. Faz tudo mais à excepção de poucas actividades de discutível contribuição nacional (beber e comer de mais, ir ao futebol, etc). Portugal (i.e., os homens portugueses) pagam-lhe este serviço, pagando-lhes menos, ou até nada.
     O pior defeito do Homem português é achar-se melhor e mais capaz que a Mulher. A maior qualidade da Mulher Portuguesa é não ligar nada a essas crassas generalizações, sabendo perfeitamente que não é verdade. Eis a primeira grande diferença: o Português liga muito à dicotomia Homem/Mulher; a Portuguesa não. O Português diz «O Homem isto, enquanto a Mulher aquilo». A Portuguesa diz «Depende». A única distinção que faz a Mulher Portuguesa é dizer, regra geral, que gosta mais dos homens do que das mulheres. E, como gostos não se discutem, é essa a única generalização indiscutível. 
      A Mulher Portuguesa é o oposto do que o Homem Português pensa. Também nesta frase se confirma a ideia de que o Homem pensa e a Mulher é, o Homem acha e a Mulher julga, o Homem racionaliza e a Mulher raciocina. E mais: mesmo esta distinção básica é feita porque este artigo não foi escrito por uma Mulher. 
      Porque é que aquilo que o Homem pensa que a Mulher é, é o oposto daquilo que a Mulher é, se cada Homem conhece de perto pelo menos uma Mulher? Porque o Português, para mal dele, julga sempre que a Mulher «dele» é diferente de todas as outras mulheres (um pouco como também acha, e faz gala disso, que ele é igual a todos os homens). A Mulher dele é selvagem mas as outras são mansas. A Mulher dele é fogo, ciúme, argúcia, domínio, cuidado. As outras são todas mais tépidas, parvas, galinhas, boazinhas, compreensíveis. 
      Ora a Mulher Portuguesa é tudo menos «compreensiva». Ou por outra: compreende, compreende perfeitamente, mas não aceita. Se perdoa é porque começa a menosprezar, a perder as ilusões, e a paciência. Para ela, a reacção mais violenta não é a raiva nem o ódio – é a indiferença. Se não se vinga não é por ser «boazinha» – é porque acha que não vale a pena. 

      A Mulher Portuguesa, sobretudo, atura o Homem. E o Homem, casca grossa, não compreende o vexame enorme que é ser aturado, juntamente com as crianças, o clima e os animais domésticos. Aturar alguém é o mesmo que dizer «coitadinho, ele não passa disto…» No fundo não é mais do que um acto de compaixão. A Mulher Portuguesa tem um bocado de pena dos Homens. E nisto, convenhamos, tem um bocado de razão. (LOLOL) 
      O que safa o Homem, para além da pena, é a Mulher achar-lhe uma certa graça. A Mulher não pensa que este achar-graça é uma expressão superior da sua sensibilidade – pelo contrário, diverte-se com a ideia de ser oriundo de uma baixeza instintiva e pré-civilizacional, mas engraçada. Considera que aquilo que a leva a gostar de um Homem é uma fraqueza, um fenómeno puramente neuro-vegetativo ou para-simpático – enfim, pulsões alegres ou tristemente irresistíveis, sem qualquer valor. 
      E chegamos a outra característica importante. É que a Mulher Portuguesa, se pudesse cingir-se ao domínio da sua inteligência e mais pura vontade, nunca se meteria com Homem nenhum. Para quê? Se já sabe o que o Homem é? Aliás, não fossem certas questões desprezíveis da Natureza, passa muito bem sem os homens. No fundo encara-os como um fumador inveterado encara os cigarros: «Eu não devia, mas.. » E, como assim é, e não há nada a fazer, fuma-os alegremente com a atitude sã e filosófica do «Que se lixe». (ahahah)
      Homens, em contrapartida, não podiam ser mais dependentes. Esta dependência, este ar desastrado e carente que nos está na cara, também vai fomentando alguma compaixão da parte das mulheres. A Mulher Portuguesa também atura o Homem porque acha que «ele sozinho, coitado; não se governava». O ditado «Quem manda na casa é ela, quem manda nela sou eu» é uma expressão da vacuidade do machismo português. A Mulher governa realmente o que é preciso governar, enquanto o homem, por abstracção ou inutilidade, se contenta com a aparência idiota de «mandar» nela. Mas ninguém manda nela. Quando muito, ela deixa que ele retenha a impressão de mandar. Porque ele, coitado, liga muito a essas coisas. Porque ele vive atormentado pelo terror que seria os amigos verificarem que ele, na realidade, não só na rua como em casa não «manda» absolutamente nada. «Mandar» é como «enviar» – é preciso ter algo para mandar e algo ao qual mandar. Esses algos são as mulheres que fazem. 
      O Homem é apenas alguém armado em carteiro. É o carteiro que está convencido que escreveu as cartas todas que diariamente entrega. A Mulher é a remetente e a destinatária que lhe alimenta essa ilusão, porque também não lhe faz diferença absolutamente nenhuma. Abre a porta de casa e diz «Muito obrigada». É quase uma questão de educação. 

      A imagem da «Mulher Portuguesa» que os homens portugueses fabricaram é apenas uma imagem da mulher com a qual eles realmente seriam capazes de se sentirem superiores. Uma galinha. Que dizer de um homem que é domador de galinhas, porque os outros animais lhe metem medo? 
      Na realidade, A Mulher Portuguesa é uma leoa que, por força das circunstâncias, sabe imitar a voz das galinhas, porque o rugir dela mete medo ao parceiro. Quando perdem a paciência, ou se cansam, cuidado. A Mulher portuguesa zangada não é o «Agarrem-me senão eu mato-o» dos homens: agarra mesmo, e mata mesmo. Se a Padeira de Aljubarrota fosse padeiro, é provável que se pusesse antes a envenenar os pães e ir servi-los aos castelhanos, em vez de sair porta fora com a pá na mão. 

Miguel Esteves Cardoso, in ' A Causa das Coisas '

Medo do Futuro...?

O principal defeito da vida é ela estar sempre por completar, haver sempre algo a prolongar. Quem, todavia, quotidianamente der à própria vida "os últimos retoques" nunca se queixará de falta de tempo; em contrapartida, é da falta de tempo que provém o temor e o desejo do futuro, o que só serve para corroer a alma. Não há mais miserável situação do que vir a esta vida sem se saber qual o rumo a seguir nela; o espírito inquieto debate-se com o inelutável receio de saber quanto e como ainda nos resta para viver. Qual o modo de escapar a uma tal ansiedade? Há um apenas: que a nossa vida não se projecte para o futuro, mas se concentre em si mesma. Só sente ansiedade pelo futuro aquele cujo presente é vazio. Quando eu tiver pago tudo quanto devo a mim mesmo, quando o meu espírito, em perfeito equilíbrio, souber que me é indiferente viver um dia ou viver um século, então poderei olhar sobranceiramente todos os dias, todos os acontecimentos que me sobrevierem e pensar sorridentemente na longa passagem do tempo! Que espécie de perturbação nos poderá causar a variedade e instabilidade da vida humana se nós estivermos firmes perante a instabilidade? Apressa-te a viver, caro Lucílio, imagina que cada dia é uma vida completa. Quem formou assim o seu carácter, quem quotidianamente viveu uma vida completa, pode gozar de segurança; para quem vive de esperanças, pelo contrário, mesmo o dia seguinte lhe escapa, e depois vem a avidez de viver e o medo de morrer, medo desgraçado, e que mais não faz do que desgraçar tudo. 



Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

"Abraça o conteúdo e Não a forma"

Às vezes o homem repudia a mulher, ou a mulher muda de amante, por se ter desiludido. Consequências do comportamento leviano quer de um quer do outro. Porque só é possível amar através da mulher e não a mulher; Através do poema e não o poema; Através da paisagem entrevista do alto das montanhas. E a licenciosidade nasce da angústia de não se conseguir ser. Quando uma pessoa anda com insónias, volta-se e torna-se a voltar na cama, à procura do fresco ombro do leito. Mas basta tocá-lo, para ele se tornar tépido e recusar-se. E ele procura noutro sítio uma fonte durável de frescura. Mas não consegue dar com ela, porque mal lhe toca a provisão esvai-se. O mesmo se passa com aquele ou com aquela que se fica no vazio dos seres. Não passam de vazios os seres que não são janelas ou frestas para Deus.
      
É por isso que, no amor vulgar, só amas o que te foge. De outra maneira, vês-te saciado e descoroçoado com a tua satisfação.

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

"Mulheres Poderosas??"


A mulher poderosa não é uma figura tirana, dominadora, arrogante e dona da verdade, que todos detestam. Esta mulher é amável, contudo, decidida. Ela sabe quem é, conhece os seus pontos fortes e fracos e gosta da própria companhia. Não abre mão da sua vida e recusa-se a correr atrás de um homem, por mais que se sinta atraída por ele. Ela não permite que ninguém tenha controlo total sobre ela e sabe defender-se quando os outros passam dos limites. Esta mulher sabe o que quer, mas não aceita ser desrespeitada para alcançar os seus objetivos. No entanto, é capaz de ceder, sem se prejudicar, pois sabe que essa atitude será importante para a harmonia do relacionamento. Por livre escolha, ela usa a feminilidade a seu favor, o que não significa que tire vantagem dos outros. Ela preza, antes de tudo, a verdade. De facto, a mulher poderosa possui algo que as boazinhas não têm: presença de espírito. Não se deixa arrastar por fantasias românticas e conhece o chão que pisa, o que a torna capaz de tomar as melhores decisões para a própria vida. Além disso, consegue manter o equilíbrio quando se sente pressionada. A diferença reside na atitude, pois enquanto a boazinha faz cedências, uma atrás da outra para manter o homem ao seu lado, a mulher com presença de espírito sabe quando parar e afastar-se.
“Gostamos quando uma mulher tem opinião própria e a defende com firmeza”. Assim, duas coisas ficaram bem claras: em primeiro lugar, os homens usam a expressão "desafio mental" para descrever uma mulher que não se mostra carente. Em segundo, disseram que essa é a característica que mais os atrai.



"Os homens de carácter são a consciência da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa força é a resistência às circunstâncias. Os homens impuros julgam a vida pela versão reflectida nas opiniões, nos acontecimentos e nas pessoas. Não são capazes de prever a acção até que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da acção preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou má, era de fácil predição. Tudo na natureza é bipolar, ou tem um pólo positivo e um pólo negativo. Há um macho e uma fêmea, um espírito e um facto, um norte e um sul. O espírito é o positivo, o facto é o negativo. A vontade é o norte, a acção é o pólo sul. O carácter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magnéticas do sistema. Os espíritos fracos são atraídos para o pólo sul, ou pólo negativo. Só vêem na acção o lucro, ou o prejuízo que podem encerrar. Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas; adoram os acontecimentos; vinculam a estes um facto, uma conexão, uma certa cadeia de circunstâncias e daí não passam. O grande homem sabe que os eventos são seus servos: estes devem segui-lo.Ralph Waldo Emerson, in 'O Carácter'

"Todos julgam segundo a aparência, ninguém segundo a essência."

"O mais atraente nela é o seu charme, os seus mistérios, o que ela oculta. A promessa de algo totalmente desconhecido. Ela é capaz de enlouquecer qualquer pessoa com um olhar de desejo contido, num sorriso tímido... e unindo isso a dezenas de outros artifícios, tudo se torna num jogo de sedução tão imprevisível e excitante, onde de repente tudo parece fazer sentido... Inteligência é afrodisíaco, vulgaridade não. A verdadeira beleza dela está nas suas ideias, na sua postura elegante, nos mínimos detalhes da sua personalidade, no seu olhar penetrante... E não no seu par de pernas à mostra ou no seu decote exagerado... Isso são, apenas, detalhes. Conheça-a intensamente... "

"A Vida é um meio de conhecimento"

"Não, a vida não me desapontou! Pelo contrário, todos os anos a acho melhor, mais desejável, mais misteriosa... desde o dia em que vejo a mim a grande libertadora, a ideia de que a vida podia ser experiência para aqueles que procuram saber, e não dever, fatalidade, duplicidade!... Quanto ao próprio conhecimento, seja ele para outros aquilo que quiser, um leito de repouso, ou o caminho para um leito de repouso, ou distracção ou vagabundagem, para mim é um mundo de perigos, é um universo de vitórias onde os sentimentos heróicos têm a sua sala de baile. «A vida é um meio de conhecimento»; quando se tem este princípio no coração, pode viver-se não somente corajoso mas feliz, pode-se rir alegremente! E quem, de resto, se ouvirá, portanto, a bem rir e a bem viver se não for primeiramente capaz de vencer e de guerrear?"

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

"Vida em Mim"

"Sabe, amigo, tantas vezes me apetece falar do que procuro, da busca incessante pelo que faz sentido. A demanda do amor límpido, seguro, sem hesitação ou medo. Encontro de almas, a tranquilidade de lagos ou de uma praia ao fim do dia, quando as gaivotas perdem medo dos homens que restam e vêm até à beira mar molhar o pé. Parece simples, não é?

Aqui estou eu de volta ao velho Oeste, e aos garimpeiros que, de peneira na mão, mergulham nas águas do rio esperando que no meio da areia se esconda a pepita que valeu o esforço. O pior, meu caro, é quando a encontramos, limpamos as impurezas, puxamos o brilho, a erguemos para que todos vibrem com o achado e se alegrem connosco, e no entanto ninguem repara. Está aqui!, clamamos. Vejam! E pomos debaixo dos olhos, mostramos a evidência dos nossos credos e convicções, ideais, utopias. Está aqui o que vale a pena, o que faz sentido. O afecto vestido de inteligência ou vice-versa, que esse agasalho é de dupla face. Porém, abafam-se os risos, indicadores tocam na testa e de seguida apontam para nós: os malucos. Na nossa mão o vácuo, ou o silêncio, enfim, nada a que se dê valor ou valha a pena acreditar. Baixamos a cabeça e fazemos por dentro companhia a nós próprios, que apesar de a Terra se mover, é triste ser Galileu.




Nuno Lobo Antunes in Vida em Mim

"A Vida é Ilegível"



"A vida, meu caro, é ilegível. Acontece e desaparece. Não há inteligência que a descodifique: vem em linguagem-nada, surge no corpo como surge o dia, e como se dia e vida individual fossem materiais paralelos. A vida não surge em prosa nem em poesia — e a existência não fala inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos resiste às invasões matreiras da publicidade e dos filmes. Já não é mau."



Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"

"O que nos resta"

"O que nos resta
é um poema adormecido
num abraço teu,
é a sombra que caminha
ao nosso lado
incrédula
e sofrida,
desmembrada, sozinha."



Alberto Riogrande in A lua no teu Umbigo