"Os homens de carácter são a consciência da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa força é a resistência às circunstâncias. Os homens impuros julgam a vida pela versão reflectida nas opiniões, nos acontecimentos e nas pessoas. Não são capazes de prever a acção até que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da acção preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou má, era de fácil predição. Tudo na natureza é bipolar, ou tem um pólo positivo e um pólo negativo. Há um macho e uma fêmea, um espírito e um facto, um norte e um sul. O espírito é o positivo, o facto é o negativo. A vontade é o norte, a acção é o pólo sul. O carácter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magnéticas do sistema. Os espíritos fracos são atraídos para o pólo sul, ou pólo negativo. Só vêem na acção o lucro, ou o prejuízo que podem encerrar. Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas; adoram os acontecimentos; vinculam a estes um facto, uma conexão, uma certa cadeia de circunstâncias e daí não passam. O grande homem sabe que os eventos são seus servos: estes devem segui-lo.Ralph Waldo Emerson, in 'O Carácter'

"Todos julgam segundo a aparência, ninguém segundo a essência."

"O mais atraente nela é o seu charme, os seus mistérios, o que ela oculta. A promessa de algo totalmente desconhecido. Ela é capaz de enlouquecer qualquer pessoa com um olhar de desejo contido, num sorriso tímido... e unindo isso a dezenas de outros artifícios, tudo se torna num jogo de sedução tão imprevisível e excitante, onde de repente tudo parece fazer sentido... Inteligência é afrodisíaco, vulgaridade não. A verdadeira beleza dela está nas suas ideias, na sua postura elegante, nos mínimos detalhes da sua personalidade, no seu olhar penetrante... E não no seu par de pernas à mostra ou no seu decote exagerado... Isso são, apenas, detalhes. Conheça-a intensamente... "

"A Vida é um meio de conhecimento"

"Não, a vida não me desapontou! Pelo contrário, todos os anos a acho melhor, mais desejável, mais misteriosa... desde o dia em que vejo a mim a grande libertadora, a ideia de que a vida podia ser experiência para aqueles que procuram saber, e não dever, fatalidade, duplicidade!... Quanto ao próprio conhecimento, seja ele para outros aquilo que quiser, um leito de repouso, ou o caminho para um leito de repouso, ou distracção ou vagabundagem, para mim é um mundo de perigos, é um universo de vitórias onde os sentimentos heróicos têm a sua sala de baile. «A vida é um meio de conhecimento»; quando se tem este princípio no coração, pode viver-se não somente corajoso mas feliz, pode-se rir alegremente! E quem, de resto, se ouvirá, portanto, a bem rir e a bem viver se não for primeiramente capaz de vencer e de guerrear?"

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

"Vida em Mim"

"Sabe, amigo, tantas vezes me apetece falar do que procuro, da busca incessante pelo que faz sentido. A demanda do amor límpido, seguro, sem hesitação ou medo. Encontro de almas, a tranquilidade de lagos ou de uma praia ao fim do dia, quando as gaivotas perdem medo dos homens que restam e vêm até à beira mar molhar o pé. Parece simples, não é?

Aqui estou eu de volta ao velho Oeste, e aos garimpeiros que, de peneira na mão, mergulham nas águas do rio esperando que no meio da areia se esconda a pepita que valeu o esforço. O pior, meu caro, é quando a encontramos, limpamos as impurezas, puxamos o brilho, a erguemos para que todos vibrem com o achado e se alegrem connosco, e no entanto ninguem repara. Está aqui!, clamamos. Vejam! E pomos debaixo dos olhos, mostramos a evidência dos nossos credos e convicções, ideais, utopias. Está aqui o que vale a pena, o que faz sentido. O afecto vestido de inteligência ou vice-versa, que esse agasalho é de dupla face. Porém, abafam-se os risos, indicadores tocam na testa e de seguida apontam para nós: os malucos. Na nossa mão o vácuo, ou o silêncio, enfim, nada a que se dê valor ou valha a pena acreditar. Baixamos a cabeça e fazemos por dentro companhia a nós próprios, que apesar de a Terra se mover, é triste ser Galileu.




Nuno Lobo Antunes in Vida em Mim

"A Vida é Ilegível"



"A vida, meu caro, é ilegível. Acontece e desaparece. Não há inteligência que a descodifique: vem em linguagem-nada, surge no corpo como surge o dia, e como se dia e vida individual fossem materiais paralelos. A vida não surge em prosa nem em poesia — e a existência não fala inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos resiste às invasões matreiras da publicidade e dos filmes. Já não é mau."



Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"

"O que nos resta"

"O que nos resta
é um poema adormecido
num abraço teu,
é a sombra que caminha
ao nosso lado
incrédula
e sofrida,
desmembrada, sozinha."



Alberto Riogrande in A lua no teu Umbigo

Humano, demasiado Humano



"O homem quer dar prazer a si próprio, mas à custa dos outros homens, seja levando-os a ter uma opinião falsa a respeito dele, seja aspirando a um grau de “boa opinião”, em que esta tem de se tornar penosa para todos os outros (provocando inveja).
O indivíduo quer geralmente, por meio da opinião dos outros, certificar e fortalecer diante dos seus olhos a opinião que tem de si. No entanto, o poderoso respeito pela autoridade – respeito tão antigo quanto o homem – leva muita gente a apoiar, também, na autoridade a sua própria confiança, ou seja, a aceitá-la somente da mão de outrem.
- Acreditam mais no critério dos outros do que no próprio.
- O interesse por si próprio, o desejo de se satisfazer alcançam no vaidoso um tal nível que ele induz os outros a uma falsa estima de si, demasiado elevada, e depois se fia, não obstante, na autoridade dos outros: desse modo provoca o erro e, contudo, lhe dá crédito.
É preciso, portanto, admitir que os vaidosos não querem agradar tanto a outrem quanto a si próprios e que chegam ao ponto de com isso descurar seu proveito, pois, muitas vezes importa-lhes suscitar em seus semelhantes disposições desfavoráveis, hostis, invejosas, em decorrência desvantajosas para eles, apenas para terem satisfação de seu eu, o contentamento de si."

Nietzsche
Excerto do Livro do Desassossego

"Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma formade a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas não se afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que não se afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da própria impotência.
São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passei o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo."
Bernardo Soares