"Sabe, amigo, tantas vezes me apetece falar do que procuro, da busca incessante pelo que faz sentido. A demanda do amor límpido, seguro, sem hesitação ou medo. Encontro de almas, a tranquilidade de lagos ou de uma praia ao fim do dia, quando as gaivotas perdem medo dos homens que restam e vêm até à beira mar molhar o pé. Parece simples, não é?Aqui estou eu de volta ao velho Oeste, e aos garimpeiros que, de peneira na mão, mergulham nas águas do rio esperando que no meio da areia se esconda a pepita que valeu o esforço. O pior, meu caro, é quando a encontramos, limpamos as impurezas, puxamos o brilho, a erguemos para que todos vibrem com o achado e se alegrem connosco, e no entanto ninguem repara. Está aqui!, clamamos. Vejam! E pomos debaixo dos olhos, mostramos a evidência dos nossos credos e convicções, ideais, utopias. Está aqui o que vale a pena, o que faz sentido. O afecto vestido de inteligência ou vice-versa, que esse agasalho é de dupla face. Porém, abafam-se os risos, indicadores tocam na testa e de seguida apontam para nós: os malucos. Na nossa mão o vácuo, ou o silêncio, enfim, nada a que se dê valor ou valha a pena acreditar. Baixamos a cabeça e fazemos por dentro companhia a nós próprios, que apesar de a Terra se mover, é triste ser Galileu.
Nuno Lobo Antunes in Vida em Mim
2 comentários:
Bem, este texto está divinalmente bem escrito!
Faço votos que nunca passes pela sensação descrita no segundo excerto e que a pepita que encontraste corresponda a todos os teus sonhos e anseios!
Afinal, não há dever que mais negligenciemos que o de ser feliz.
Porém, parafraseando Helen Rowland, quando uma mulher se enamora, troca as atenções de uma série de homens pela desatenção de um só...:)
Esperto esperto é o pato que já nasce com os dedos colados para evitar usar aliança!
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