"Abraça o conteúdo e Não a forma"

Às vezes o homem repudia a mulher, ou a mulher muda de amante, por se ter desiludido. Consequências do comportamento leviano quer de um quer do outro. Porque só é possível amar através da mulher e não a mulher; Através do poema e não o poema; Através da paisagem entrevista do alto das montanhas. E a licenciosidade nasce da angústia de não se conseguir ser. Quando uma pessoa anda com insónias, volta-se e torna-se a voltar na cama, à procura do fresco ombro do leito. Mas basta tocá-lo, para ele se tornar tépido e recusar-se. E ele procura noutro sítio uma fonte durável de frescura. Mas não consegue dar com ela, porque mal lhe toca a provisão esvai-se. O mesmo se passa com aquele ou com aquela que se fica no vazio dos seres. Não passam de vazios os seres que não são janelas ou frestas para Deus.
      
É por isso que, no amor vulgar, só amas o que te foge. De outra maneira, vês-te saciado e descoroçoado com a tua satisfação.

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

3 comentários:

McReggie Boscorelli disse...

Esta mensagem não é fácil comentar mas como fala em janelas e frestas a coisa até se compõe, uma vez que olvida os óculos e seteiras!
Mas a beleza e o amor estarão nas coisas ou nos olhos de quem vê?! Será assim possível amar através de qualquer mulher que até nos fuja?!
É bem certo que a desilusão existe, mas o amor não acaba! Afinal, tal como o sol, é inegostável. Quando se ama verdadeiramente tudo se perdoa e se sofre...
Todavia, tem vários raios e direcções, sendo multifacetado, não único e repetível! E acima de tudo, insaciável...

Melanie Domingues disse...

Meu caro amigo, a beleza existe... e não me venham cá dizer que a beleza é interior e blá blá blá!!! Pois se assim fosse, não seria necessário olhar para o lado, à procura da dita fonte de frescura que nunca desaparece... Nós somos seres complexos e nunca estamos satisfeitos. E a verdade é que tudo o que queremos é o amor, o que nos faz mover mundos. procuramos o amor em tudo e todos... Mas só quem sabe o que é o amor... percebe que o amor se constrói... e não, não se procura!

McReggie Boscorelli disse...

Tenho um amigo meu que é o rei da chamada "beleza interior"! A sua filosofia de vida é: uma vez dentro, beleza!
Mas de facto o amor não nasce ou cresce nas árvores, não sendo também coisa que se encontra nos perdidos e achados.
Coisa mágica e misteriosa o amor... Mas lá diz o povo que o corazon tem razões que a razão desconhece. Ou seja, é possível que o amor seja de sequeiro e produza numa marinha de arroz ou vicer-versa: seja de regadio e floresça no Sahara!