Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notaste que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não achas?! Admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabes porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. 
      É assim o homem, meu amigo, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. Observa os teus vizinhos... se  alguém morre no prédio, na aldeia, alguém que conhecias da faculdade.... Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o dono da taberna. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no jornal e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, pois então!! É a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
      É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!!

1 comentário:

McReggie Boscorelli disse...

Mais um belo texto a perfumar este teu blogue!
Ainda que de uma forma um tanto ou quanto divertida no seu final, a única explicação que encontro para tal facto é a circusntância da morte encerrar em si algo de escuro, sombrio e simultaneamente definitivo, fechado que não regressa.
Sabe-se que há um sem número de teorias e religiões mas a vida terrena tal qual a conhecemos e com as pessoas de quem gostamos, talvez não regresse...
Não é tanto a pessoa em si que morre e de quem nos despedimos, mas sim de todo um futuro que não será igual, todas as hipóteses de bons momentos, de perdão, de fraternidade, de abandono dos egoísmos, de mudança do curso da história, etc. que se esfuma.
É sempre o futuro que parte e se nos foge por entre os dedos...
Por isso, desta vez não acompanho totalmente o que dizes, pois acho que não é tanto o espectáculo que começa mas sim algo que acaba sem possibilidade de mudar.
Por fim, duas brincadeiras com traço, que se pretende, humorístico: quanto ao aperitivo, assim seria caso houvesse martini; e quanto à ida aos funerais, há sempre uma bela de justificação para não ir: afinal o defunto já não irá ao nosso.
Todavia, o que me causa sempre pesar é ver a vida esfumar-se, sabendo que nunca mais será igual, começando a sentir saudades de um futuro que não aconteceu. Como dizia António Nobre, suponho, não perguntes por quem os sinos dobram: dobram, por mim, por ti e por todos. Mesmo que seja o homem da taberna, pois todas as peças têm encaixe na nossa vida...