Ahhhhhhreeee!!!


      Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigada a escutá-los, a dialogar com eles. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. 
       Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?

        No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil. Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. 
         A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um «parvenu» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro. Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer "plof" e descer, liquidado. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi. 

2 comentários:

McReggie Boscorelli disse...

Muito bem senhorita! Toda uma nova decoração cá no estaminé e está hispectacular...
Bem, isso hoje é que foi um texto assim especial. Quase parece um texto de intervenção social: cantado pelo Abrunhosa virava sucesso...
Mas tens razão no que escreves. Infelizmente há muito disso, mas não sei o que seja pior: uma pessoa convencida ou uma pessoa sem confiança alguma e qualquer espírito de iniciativa!
E ironia das ironias, por vezes, as aparências iludem e as iludências aparudem... Quantas e quantas vezes um convencimento ou vaidade mais não é que uma máscara da própria insegurança?!

Melanie Domingues disse...

Cada vez mais me convenço desse facto. Um convencido e gabarolas não passa de uma pessoa insegura, com medo de não ser suficientemente bom/a. Enfim, cada um é como é... Eu continuo a achar que o melhor mesmo é sermos convencidos e vaidosos, mas ao mesmo tempo, seguros de nós próprios. Será que isso existe...?