Vivemos tempos imediatos, em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor (de cabeça ou do coração). Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho... Tomam-se conselhos e comprimidos... procuram-se escapes e alternativas, mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar... É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha que nos despedaça o coração, que nos mói e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais... mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
1 comentário:
Gostei Melânia :)Bastante!
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