Chove lá fora... e dentro de mim.
O caminho mais errado para a felicidade é vivermos, constantemente no grande mundo, à grande e à francesa, em festas e festinhas. Tentamos, assim, transformar o nosso miserável existir em inúmeras alegrias, gozos, prazeres e, consequentemente, em desilusão. Na verdade, não conseguimos evitar a desilusão, e muito menos as mentiras. O que dizemos, o que fazemos.... tudo mentira! No fundo, só podemos ser nós mesmos enquanto estivermos sozinhos. E se amares a solidão, amarás, igualmente, a liberdade!
Apenas quando estamos sós é que estamos livres. E cada um fugirá, suportará ou amará a solidão, dependendo da sua personalidade. Só na solidão.... o indivíduo cínico sente todo o seu cinismo! Já um altruísta, toda a sua grandeza!
Em poucas palavras: cada um sente o que é.
Simone... no seu melhor!
Já te dei o meu corpo, a minha alegria!
Já estanquei o meu sangue... quando fervia!
Olha a voz que me resta, olha a veia que salta, olha a gota que falta... para o desfecho da festa.
Por favor !
Deixa em paz o meu coração, que ele é um pote, até aqui, de mágoa.
E qualquer desatenção... Faça não !
Pode ser a gota d'água!
Freedom!!
Ele ficava doido, sentia-se possuído!! Ele sentia-a apagar-se... Fria, insensível ao gesto de afago, ao toque, a um simples carinho... só porque não sentia qualquer entusiasmo. Irreverência, faz parte do encanto dela. Ela sabia torna-se por vezes insuportável, com a mania de viver, aproveitar cada minuto, fazer tudo num só dia, como se fosse morrer no momento seguinte, a fazer de conta que.... hostil, alheada. Ele procurava o perdão... Mas agora não..... Agora ela quer recuperar a sensação de liberdade, de alegria de viver. Ela nem sabia que se poderia recuperar algo, a não ser objectos perdidos....
Enfim...
Tens nas mãos um mapa... elas sabem mais do que as minhas. Agora sei, não te deveria ter deixado entrar novamente na minha vida. Entraste por atalhos, caminhos que eu desconhecia. Agora sei... é tarde para tudo. Sem uma palavra, de novo me raptavas.... os descuidos pagam-se caro. No fundo, no fundo eu tenho a certeza: o que tu queres é o segredo, o código da minha alma, a chave do meu pensamento. Para o meu corpo não é necessário. Aqueles dias...
Como quem tece um xaile para o frio da alma, eu invento os teus braços nos meus ombros... o verão da tua boca na minha pele. No meu outono, agreste, invento-te. E a tua lembrança, que não foi nem houve, porque não existes... ou o teu destino é longe, e noutro lugar atravessa a noite.
É necessário sermos artistas!
Vivemos tempos imediatos, em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor (de cabeça ou do coração). Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho... Tomam-se conselhos e comprimidos... procuram-se escapes e alternativas, mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar... É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha que nos despedaça o coração, que nos mói e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais... mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
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